(entre)Vistas - Raquel Canoa e a Felicidade no trabalho

11.4.2022 / por Francisco Paquete

"(entre)Vistas" é uma rúbrica da RHmais, através da qual partilhamos os pontos de vista, experiências e dicas de alguns dos best performers e opinion makers dos mais variados setores, sobre os temas mais relevantes da atualidade nos nossos mercados.

Nesta edição, trazemos a visão da Raquel Canoa, responsável pelo projeto "Hapiness at Work" da RHmais, sobre o tema da Felicidade no trabalho e o seu impacto quer no bem estar quer no desempenho das Pessoas.


 

Quem é a Raquel e o que é afinal isto de ser Gestora da Felicidade?

O meu nome é Raquel Canoa e desde 2015 que faço parte da RHmais. Fui mãe aos 32 e aos 37 anos, tenho um marido incrível, colegas que são amigos e amigos que são família. Sou feliz e tenho muitos momentos de felicidade por viver; os meus e os das pessoas que se relacionam comigo.

Sobre o que faço: Em 2019 foi-me entregue a oportunidade de desenvolver a área da Felicidade no local de trabalho, através da criação de uma cultura organizacional de Encorajamento e Empoderamento dentro de um dos projetos da RHmais. O ponto de partida foi o MATM® - Melhor Ambiente de Trabalho do Mundo, um conceito desenvolvido em 2016 pelo nosso diretor, que desde cedo o estabeleceu como uma das linhas prioritárias no nosso projeto: “Uma cultura que promova o contraste entre a tarefa árdua desempenhada e o ambiente positivo e facilitador nas relações interpessoais e organizacionais, assentes em 3 premissas: Ter uma atitude positiva; Dar sempre o nosso melhor; e Encorajar pessoas à nossa volta.” - Frederico Carona.

O que é para si a Felicidade (aplicada a este contexto)?

Vejo a Felicidade como um músculo que necessita de exercício diário. Não se trata de acordarmos bem-dispostos ou de nos sentirmos motivados, trata-se da consciência de que somos parte da construção da Felicidade e Bem-estar para as nossas pessoas no local do trabalho, e de que as nossas decisões e ações devem ser intencionais nesse sentido.

Desde distribuir Bolas de Berlim (só para alegrar o dia) a enviar cerca de 800 postais individuais de agradecimento personalizados por correio, a desenvolver jogos ou a promover o convívio… é reconhecer que o todo e o conjunto pode ser maior, mas não é em todas as vertentes mais importante do que o individual. É ter a oportunidade de chegar à maioria, mas também o privilégio da proximidade no one-on-one, a partilha de um break para café, um bom dia com sorriso, o parar para ouvir a resposta à pergunta “está tudo bem contigo?”... É ter a capacidade de associar uma cara a um nome, mas também reconhecer o seu percurso e contributo para os resultados da Organização. É valorizar o indivíduo, e proporcionar momentos e oportunidades a todos, sem exceção. É usar um discurso positivo e encorajar, mas também saber ouvir e tomar ações sobre as palavras que chegam até nós.

Recentemente começámos a usar a hashtag #SOMOSMAISCONTIGO - e essa pequena assinatura é uma simples e poderosa declaração sobre o valor que as nossas pessoas têm para a RHmais. Todas as nossas pessoas nos acrescentam valor e reconhecemos que vamos mais longe e com mais eficiência por causa do empenho de cada uma delas.

Uma remuneração ajustada ou incentivos extra são muito importantes, bem como o ambiente de trabalho ou a equipa onde se está inserido, mas claramente o reconhecimento (verbalizado ou demonstrado) por parte da Organização ou dos superiores hierárquicos é parte fundamental para a Felicidade dos colaboradores, abrindo canais de comunicação bidirecionais e desenvolvendo a auto estima e a autorrealização por parte das nossas pessoas.

A existência da sua posição é prova concreta de que, cada vez mais, as empresas se preocupam com estes temas. O que acha que mudou nos últimos anos e que “forçou” esta nova abordagem?

Lembro-me quando iniciei esta função, de alguns colegas brincarem comigo por incluir na minha assinatura “Gestora de Felicidade”... e sem dúvida que hoje existe mais informação e até mais curiosidade sobre o tema. Com esta função aprendi que mais importante do conseguir motivar é ser capaz de inspirar, e isso só conseguimos fazer se formos consistentes tanto no discurso como nas ações. Os colaboradores querem saber que as Organizações se preocupam com elas, que as querem ajudar e sentir que podem confiar nelas.

Com a chegada da Gerações Y (nascidos entre 1982 e 1994) ao mercado de trabalho, as Organizações adaptaram-se e passaram também por transformações na forma como abordam as questões do dia-a-dia de trabalho. O surgimento do conceito de que “tu tens que estar bem e sentir-te bem para conseguires produzir” tornou-se uma máxima nas Organizações menos conservadoras. O aparecimento dos lounges ou espaços de lazer nos locais de trabalho ou a simples presença de uma cesta de fruta fresca e café gratuito são exemplos dessa procura pelo bem-estar dos colaboradores. Mas os desafios que enfrentamos evoluem quando presenciamos e interagimos com uma nova geração - a Geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) que traz com ela todo um novo modelo de socialização e abordagem no que diz respeito ao digital e até mesmo na criação dos seus próprios postos de trabalho.

No passado as pessoas não ousavam questionar, faziam o seu trabalho e voltavam para casa. Nos dias de hoje, os limites entre a vida profissional e a pessoal são mais ténues e os trabalhadores revelam com maior facilidade o seu perfil comportamental, não receando dar voz às suas opiniões, e o que nós fazemos no dia-a-dia é muitas vezes uma resposta prática a estas vozes.

O expectável para o futuro é que mais mudanças continuem a acontecer nas Organizações. O desafio para nós é que sejamos os maiores promotores das mesmas e que exista em nós a consciência de que não é necessário aos novos percorrer o caminho que já foi percorrido por nós, e que consigamos transformar a nossa “Meta” numa “Casa de Partida” para as próximas gerações.


Que impacto sente que as suas ações têm no dia a dia da empresa e, mais concretamente, na vida dos colaboradores?

Sentimos agora mais do que nunca, que estes momentos são uma necessidade e não um opção, fruto das consequências do isolamento e distanciamento social que a grande maioria das pessoas em Portugal experimentou durante os últimos 2 anos.

Os impactos podem ser medidos de várias formas. A curto prazo, na criação de momentos de descontração onde é fácil sorrir ou soltar uma gargalhada. Em iniciativas que exigem “desligar o botão do stress” e participar pela diversão ou simplesmente pela necessidade de parar uns minutos. Em ambientes tensos ou de muita pressão, estes momentos são muitas vezes um “balão de ar” para ajudar a “respirar” no resto do dia.

A longo prazo, percebemos que as pessoas se sentem integradas na Organização ao participarem destes momentos, e por consequência sentem-se também valorizadas.

Os empregos já não estão somente “dentro de uma caixa”, restritos a um horário rígido ou a um local específico, mas passaram a fazer parte das nossas vidas como um todo, e é por isso tão necessário incluir o elemento Felicidade no Trabalho, porque sabemos que se vai refletir nas restantes áreas da vida das nossas pessoas.


De que forma é possível atestar a Felicidade das pessoas e medir a sua melhoria?

Não há nada melhor do que ouvirmos em primeira mão ou lermos um testemunho de como um determinado momento trouxe um impacto positivo ao seu dia. Pedimos regularmente feedback aos nossos colaboradores sobre as atividades desenvolvidas, o que nos ajuda a melhorar nos detalhes, a planear para o futuro e a crescer, sendo que o objetivo é chegar ao maior número de pessoas e ter a maior taxa de participação possível. É dessa forma que medimos o sucesso de uma ação, sendo que a participação das pessoas resulta do seu esforço discricionário. A maioria das pessoas só o fazem se estiverem felizes, satisfeitas, inspiradas ou se houver a possibilidade de existir um benefício em troca.


Acredita que a aposta na Felicidade dos colaboradores traz efetivamente melhores resultados para as empresas? Se sim, em que medida?

Não só acredito nessa afirmação, como já experimentei que quando nos sentimos valorizados fazemos o que estiver ao nosso alcance para contribuir para melhores resultados. Pessoas felizes fazem as Organizações felizes.

“Os trabalhadores felizes faltam menos 36%, têm menos 45% de vontade de mudar de empresa e sentem-se 9% mais produtivos”, segundo o estudo Happiness Works 2021, apresentado no evento “Empresas Felizes 2021”.

Segundo a empresa Vittude Corporate, a aposta na Felicidade nas Organizações contribui para “a redução do absentismo e turnover, o aumento da produtividade, a melhoria do clima organizacional, a melhoria na atração e retenção de talentos e para a redução de casos de transtornos psicológicos.”

“A felicidade é lucrativa, mas a felicidade dos colaboradores não acontece por acaso, é algo que requer investimento” - Ricardo Parreira, CEO da PHC Software

Todos nós gostamos de receber boas notícias, certo? Se cada um de nós conseguir contribuir para que alguém no nosso trabalho receba uma boa notícia (um elogio, ou um presente, que dê uma gargalhada ou tenha um pensamento feliz), estaremos todos a contribuir não só para uma cultura poderosa de encorajamento, mas também para uma maior produtividade e resultados melhores. Isto, porque as interações sociais positivas estimulam a libertação de serotonina, uma hormona importante para o nosso bem-estar. Este tipo de interações é tão importante como o dormir bem, o fazer exercício e o ter uma alimentação saudável, mas o mais incrível é que está ao alcance de qualquer um de nós promover estas interações.

Voltamos sempre aos lugares onde já fomos felizes, e é por isso importante criar memórias felizes no trabalho - até porque temos que lá voltar de segunda a sexta.


Sente que este tema é uma “moda passageira” ou que estamos efetivamente perante uma mudança de paradigma? No caso de escolher a segunda opção, quais acha que podem ser as consequências para as empresas que não acompanharem?

Esta “moda” surgiu em 1998… embora só mais recentemente faça parte das nossas vidas, e é por isso que acredito que o caminho é para a frente! É a continuidade e a consistência em promover momentos felizes.

As consequências do não investimento nesta área serão o aumento da insatisfação dos colaboradores, o desencadeamento de problemas psicológicos como ansiedade, depressão e burnout, o aumento do absentismo e turnover, bem como a redução de produtividade e o distanciamento dos colaboradores com as suas Organizações.

Depois de uma pandemia que mudou para sempre as nossas vidas e a forma como nos relacionamos, é essencial promover os encontros, a socialização presencial e o bem-estar coletivo através de ações que têm como objetivo a felicidade das nossas pessoas.

A nossa realidade profissional mudou, estando a maioria dos nossos colaboradores em modelos de trabalho híbridos, e, se por um lado é um passo em frente relativamente ao equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal, por outro lado existe também o risco do isolamento, e é o nosso dever, enquanto “Gestores de Felicidade” encontrarmos soluções e oportunidades que sirvam as realidades e os desafios do Trabalho Remoto e do Trabalho Presencial, medindo a satisfação das nossas pessoas, integrando-as em equipas que desenvolvem o seu potencial e acompanhando-as no dia-a-dia, disponibilizando-nos para as servir e ajudar a concretizar objetivos.

A busca pela Felicidade estará sempre presente em todas as esferas da nossa vida. Não temos que negar a nossa Felicidade pessoal para sermos Profissionais de sucesso, da mesma maneira que não temos que desistir de uma Carreira para sermos boas mães ou pais (porque também isso nos faz felizes). A Felicidade torna tudo melhor e deve estar presente em todas as áreas da nossa vida, inclusive na profissional.

"Devemos escolher entre produtividade e felicidade?(...) Lucro ou propósito? Devemos decidir isto? Não. Devemos, sim, decidir todos juntos.” - João Pedro Tavares, Presidente da ACEGE.

Trata-se de usarmos os recursos que temos à nossa volta e empoderarmos as Equipas de Suporte e Líderes nas nossas Organizações para juntos ajudarmos na construção do percurso que as nossas pessoas precisam efetivamente de percorrer, introduzindo intencionalmente momentos de Felicidade no seu dia-a-dia.

Tópicos: Gestão de Recursos Humanos Felicidade

Francisco Paquete

Escrito por Francisco Paquete

Marketing e Comunicação Grupo RHmais

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